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HEPATITE C - A epidemia oculta

Caio Rosenthal*
O vírus da hepatite C (HCV) foi identificado em 1989 como o agente da antiga hepatite “nãoA, nãoB”. O único hospedeiro natural conhecido é o ser humano. A transmissão ocorre através do contato percutâneo com sangue ou seus derivados. Exposições a material contaminado podem se dar de inúmeras maneiras: uso de drogas endovenosas, exposição ocupacional, tatuagens, acupuntura, inalação de cocaína através de canudos contaminados, comportamento sexual de alto risco e, mais raramente, através da transmissão vertical e do aleitamento. O contato casual intradomiciliar e a saliva de pessoas contaminadas não são vias de transmissão eficazes. Alguns trabalhos apontam que em cerca de 30% dos casos a forma de transmissão não é conhecida.
São considerados grupos de alto risco para aquisição do vírus C:
- usuários de drogas injetáveis e inaláveis;
- pessoas que receberam transfusão de sangue ou de derivados antes de 1992 — ano em que foram introduzidos os exames para seleção de doadores;
- hemofílicos que receberam fatores de coagulação antes de 1987;
- pessoas com exposições percutâneas freqüentes – por exemplo, profissionais da saúde;
- imigrantes de países onde há alta prevalência;
- pessoas assintomáticas, mas com evidências clínicas e ou bioquímica de doença hepática crônica.

Nesses grupos, mesmo entre os assintomáticos, recomenda-se também fazer triagem sorológica para o vírus da hepatite B, lembrando que, nesse caso, a via sexual é, ao contrário do HCV, extremamente eficaz. Alguns trabalhos sugerem que um em cada trinta brasileiros deve estar contaminado com um dos dois vírus.
Devido à via de transmissão compartilhada, cerca de um terço dos pacientes infectados com HIV também estão co-infectados com o vírus da hepatite C. Portanto, é recomendável a triagem sorológica para o HIV em pacientes com hepatite C.
São justamente as exposições a materiais contaminados que normalmente não são valorizadas, como procedimentos feitos por maus profissionais em acupuntura, piercings, tatuagens, tesouras, alicates, giletes etc. – que passam despercebidas, sendo atualmente os meios de transmissão mais importantes para a disseminação silenciosa e oculta da epidemia, pois a triagem sorológica em bancos de sangue passou a ser instituída após a descoberta do vírus.
A hepatite C é a causa mais comum de doença hepática crônica e de carcinoma hepato-celular (HCC) e a primeira causa de transplante de fígado no mundo inteiro.

O HCV infecta cerca de 170 milhões de pessoas no mundo. No Brasil, calcula-se em torno de 3 a 4 milhões de infectados. Destas, 85% irão desenvolver doença crônica, sendo que 20% terão progressão para cirrose em 20 a 30 anos e 5% a cada ano desenvolverão carcinoma hepatocelular.
A grande maioria dos diagnósticos é feita ao acaso, quando pessoas assintomáticas vão fazer doações de sangue ou passam por avaliações laboratoriais rotineiras. As aminotransferases na infecção crônica podem estar normais em 25% dos casos.
O diagnóstico pode ser feito tanto por meio da pesquisa de anticorpos, como através da procura do ácido nucléico do vírus, por exemplo com a técnica de PCR (Reação em Cadeia pela Polimerase). O primeiro é mais simples e mais barato, mas apresenta um inconveniente: não é possível diferenciar uma hepatite que se tornou crônica daquela situação em que já houve o contato e a pessoa conseguiu depurar o vírus, e manteve-se com anticorpos (em cerca de 25% dos casos o vírus é eliminado na fase aguda). Os exames pela técnica de PCR podem tanto informar a presença ou ausência de partículas virais, como também podem quantificá-las.


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