|
As histórias de um hospital centenário |
Centro de referência em
hanseníase e tuberculose,
local registra passagem de
personagens ilustres
VANESSA SPADA
Em setembro, o Hospital
São Luiz Gonzaga, no Jaçanã,
completa 100 anos.
Fundado em 1904, em uma fazenda
de 160 alqueires, sua função
era cuidar de doentes que sofriam com a hanseníase.
Naquela época, essa doença,
incurável e transmissível, era um
problema de saúde pública que amedrontava a população. Por isso,
foi construído um sanatório
tão distante do centro da cidade.
Não havia nenhuma estrada, sequer
pontes no Rio Tietê. Por isso,
conta a lenda que os doentes
chegavam à região no lombo de
burros. “Brincamos que o centro
médico é mais antigo que o trem
das onze, que Adoniram Barbosa
cantou”, diz o dministrador, Sylvio Mauro
Pereira.
O hospital foi inaugurado com
o nome de Leprosário Guapira,
mantido pela Santa Casa de Misericórdia
de São Paulo. Em 1932,
acabou rebatizado com o nome
atual e passou a cuidar de outro
mal da época, a tuberculose.
Foi lá que vários remédios contra a doença foram testados e se realizou o 1.º |
|
| |
Congresso Brasileiro de Tuberculose. Muitas histórias margeiam o local, como um pinheiro que teria sido plantado por Monteiro Lobato. “Só não conseguimos saber ainda se ele passou por aqui como paciente
ou como visitante”, diz Pereira. Oadministrador relata que, nas décadas
de 1930 e 1940, era comum
os pacientes que tinham alta médica
plantarem uma árvore nas
dependências do centro médico.
Outra curiosidade são os painéis
de pintores famosos,
como Volpi,
que ficam na área
da maternidade.
“Estamos tentando
trazer uma historiadora
para fazer
um levantamento das obras.”
Um dos médicos mais conceituados
do Brasil também passou pelo local. Euriclides de Jesus Zerbini chegou ao São Luiz Gonzaga em 1937, como médico |
|
voluntário. Saiu de lá em 1953, como chefe do Departamento de Cirurgia Torácica. “Foi
aqui que ele desenvolveu as técnicas
para, mais tarde, fazer o primeiro
transplante de coração da
América Latina”, diz Pereira.
Morador – O médico Manoel
Joaquim Moreira Dias, de 79
anos, começou como residente,
em 1952. Nunca mais deixou as
dependências do hospital. Trabalhou
em outros locais, masmora
no centro médico desde aquela
época. “Sou de Campinas e vim
fazer a Faculdade Paulista de Medicina.
Morava em uma pensão.
Quando um professor nos ofereceu um estágio, vim morar primeiro
em um dos pavimentos e, em 1958, na casa onde estou até hoje”, conta.
Em 1968, o São Luiz Gonzaga se tornou um hospital geral, pois a tuberculose passou a ser uma |
|
doença tratável. Na fim dadécada
de 1970, desativou-se o lugar,
por causa dos problemas financeiros
que a Santa Casa passava.
Em 1988, o pronto-socorro reabriu como hospital municipal.
Só
em 1994 voltou às mãos da Santa
Casa e retomou as atividades gerais.
Aos poucos, com o crescimento do bairro,
a área do centro
médico foi sendo doada e vendida,
ficando, mesmo assim, com
60 mil metros quadrados de área
construída e muito verde.
Passam pelo lugar cerca de
1.500 pessoas diariamente.
O local
atende moradores do entorno
e de Guarulhos, sendo um
dos hospitais mais importantes
da região. Tem 280 leitos de internação
e realiza 3 mil partos anualmente. |
|