MUSEU DA IRMANDADE DA SANTA CASA DE MISERICÓRDIA DE SÃO PAULO
Texto de João Alves das Neves (*)
Em 06 de junho do ano 2000 às 14:00hs, na gestão do Provedor Dr. Octavio de Mesquita Sampaio, foi o Engº Augusto Carlos Ferreira Velloso designado Mordomo do Museu, tendo iniciado a reunião do acervo, hoje construído por cerca de 5 mil peças. Era Vice-Mordomo o Dr. Luiz Rodrigues de Moraes, que com a Coordenadora Dona Maria Nazarete de Barros Andrade, deram início a coleção museológica. Inaugurado em 21 de Março de 2001, o Museu da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, reúne peças não só relacionadas com a atividade médico-hospitalar, mas também com a participação dos paulistas na construção e desenvolvimento da entidade, isto é, aqueles que fizeram doações para aumentar e atualizar paralelamente os mais diferentes serviços de ordem social e administrativa, histórica, cultural e artística.
Não havendo documentação que testemunhe o dia em que nasceu a instituição, sabe-se, porém, que foi fundada antes de 1560, sob a égide da Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo. Portanto, é uma das mais antigas associações da povoação fundada em 25 de Janeiro de 1554 pelo Padre Manuel da Nóbrega e por outros religiosos da Companhia de Jesus, entre os quais teve papel relevante o Padre José de Anchieta. E por isto não há dúvida de que acompanhou a evolução da cidade bandeirante que se tornou a maior de Língua Portuguesa no Mundo.
Evidentemente, o Museu da Santa Casa não pôde reunir toda a documentação que ilustra o desenvolvimento da entidade - a mais ampla Misericórdia de todo o mundo - congregando cerca de 900 unidades, se incluirmos perto de 400 em Portugal e quase 500 no Brasil. Seja como for, este original Museu paulista identifica centenas de edificadores da obra que teve o Capitão-Mór D. Simão de Toledo Piza, entre os seus principais impulsionadores.
Apar de objetos de uso comum e até de centenares de instrumentos de particular interesse médico-científico, há que relevar mais de uma centena de retratos, numerosos dos quais sugerem a maior validade artística, quer se trate de esculturas, quer de pinturas e de peças decorativas representativas de várias civilizações antigas e de diferentes épocas, até chegar ao nosso tempo.
Merecem realce as obras de sentido histórico representando os edifícios das Misericórdias do passado e do presente ou os médicos que fizeram da Santa Casa
Paulistana uma das mais ativas do País. São dezenas as personagens retratadas no bronze ou na pintura, e muitas delas estão ligadas não só à Medicina mas igualmen- te à História de São Paulo e do País, como são os casos do professor Arnaldo Vieira de Carvalho e dos médicos Caetano de Campos, Diogo Teixeira de Farias, Enjoras Vampré, José Celestino Bourroul, Synesio Rangel Pestana, José Ayres Netto, Luís Pereira Barreto e outros médicos e professores que muito prestigiaram a Santa Casa.
Os grandes beneméritos têm merecido destaque nas diversas salas museológi-
cas: foram “gente d’algo”, como antigamente se dizia, que deixaram bom nome na expansão da metrópole e que trabalharam nos setores do comércio, da indústria e da
agricultura ou que exerceram profissões liberais, todos unidos na singular obra assis-tencial fundada em Lisboa pela Rainha D. Leonor de Lancastre no ano de 1498 e que depois se espalhou pelo mundo de fala portuguesa.
Outra referência indispensável deve ser feita ao acervo de arte, sem omitir o espírito religioso que sempre orientou as Santas Casas, bem como as esculturas clássicas (mais de 20!). Quanto aos trabalhos dos 54 “Pintores da Pinacoteca” somam algumas dezenas (Oscar Pereira da Silva assina 24 e 37 são de ”Augustus”/Augusto Mendes da Silva!), indicando-se por acréscimo os nomes de artistas prestigiosos: Almeida Junior, Oscar Pereira da Silva, Benedito Calixto, Gino Catani, Pedro Alexandrino, Ernesto Papf e outros. Nem faltam nesta coleção alguns modernistas, figurando ainda telas de C. Genaro, D. Ismailovitch, Tarsila do Amaral, Castellano, um painel artístico de Anita Malfati e outros 3 de Aldo Bonadei, um painel de Volpi e um pintura sobre pastilhas de Flexor, encontram-se no Hospital São Luiz Gonzaga.
Os artistas plásticos brasileiros constituem a maioria, mas há também italianos, portugueses e provavelmente de outros países. E uma nota curiosa: há uns dois anos pediu-nos a diretora do Museu José Malhoa (das Caldas da Rainha, Portugal) que localizasse as obras no Brasil do escultor Pinto do Couto e Galileo Emendabili mas de bem poucas pudemos informar - só conheciamos raros trabalhos que deixou neste País, ressaltando o excelente busto de mármore que fez de Luís de Camões e que se encontra no Clube Português de São Paulo, embora saibamos de outros. Pois bem: na pinacoteca da Santa Casa paulista descobrimos agora os 2 bustos que ele esculpiu do Dr. Arnaldo Vieira de Carvalho e mais 2 do Dr. Diogo Teixeira de Farias.
Não nos foi possível aprofundar a pesquisa, limitando-nos a estabelecer a mera relação de certos painéis, de óleos e de esculturas, mas bastam as citações para justificar que o Museu da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo guarda um acer-vo que merece a visita de críticos e estudiosos das artes plásticas do Brasil.
Além dos doadores de pinturas, esculturas e de outras obras artísticas, há que chamar a atenção para a valiosa galeria de arte ainda tão mal conhecida, e que, por
conseguinte, deve ser estudada pelos especialistas. No mínimo, eles não podem ignorar esta grande coleção artística, que foi reunida com as ofertas dos amigos da Santa Casa, graças aos esforços de numerosos abnegados e, sobretudo, ao bom gosto do Mordomo do Museu Engº Augusto Carlos Ferreira Velloso, Dr. Luís Rodrigues de Moraes –, que nesta tão louvável iniciativa tem contado com a assistência de D. Maria Nazarete de Barros Andrade que muito cuidadosamente resgata peças recicladas e que restaura, organiza e coordena o acervo.
A “Roda”, a Farmácia e a Ortopedia
Algumas atividades da Santa Casa de Misericórdia de merecem um capítulo à-parte, em virtude da importância de que se revestem por suas conotações históricas, culturais e médico-hospitalares de São Paulo e do Brasil.
Começamos por assinalar a “Roda dos Expostos ou Excluídos”, de origem italiana ou portuguesa, que terá sido instalada no Rio de Janeiro , seguindo-se as da Bahia e de São Paulo, onde funcionou desde 2 de Julho de 1825 até 5 de Junho de 1950. A Roda de São Paulo, está hoje no Museu da Santa Casa paulistana trata-se de uma autêntica “roda”, de forma cilíndrica, que girava sobre um eixo: a criança era colocada no cilindro, que rodava para dentro. O entregador tocava uma campainha e uma das caridosas freiras vinha recolher o bebê e providenciava a sua internação, lavando-a e alimentando-a - em resumo, o menino ou a menina eram criados pelas religiosas, até que, na idade adequada, a criança era confiada ao Asylo Sampaio Viana, que ficava no Pacaembu, e posteriormente encaminhada ao Colégio de São José, mantido pela Santa Casa. Depois de alfabetização, o exposto aprendia uma profissão, aprendiam a falar em francês e latim, até que pudesse viver do seu trabalho.
Alguns meninos ou meninas, educados tão cristãmente, conseguiram chegar à Universidade e muitos deles ocuparam situações profissionais de alto nível na sociedade. Era humilde e desconhecida a sua origem, a infância e a adolescência ficou registrada apenas nos seus cadernos escolares, o que reforça ainda mais o sentido social da obra verdadeiramente misericordiosa. O mundo evoluiu, a “roda” pertence ao passado, mas aqueles que a serviram revelaram-se bem mais solidários com as crianças do tempo do que certos que hoje trabalham nas instituições oficiais com a
obrigação de cuidar dos meninos e meninas abandonados.
Entre as histórias que mais parecem contos de fada do que as realidades de ontem, a histórias da “roda” ainda são por vezes lembradas por aqueles que as escutaram de seus pais e avós – e por este modo se explica que a roda dos expostos seja uma das “ peças” que maior curiosidade despertam entre os visitantes do Museu da Santa Casa Bandeirante.
Outra atração da entidade é a da área da Farmácia, cujas obras são guardadas nas salas da Farmácia, nas quais podem reencontrar-se, entre outras, um antigo alambique de cobre, que servia para distilar água, assim como uma balança inglesa usada para pesar materiais raros indicados para determinados tratamentos. Há igualmente potes de belas formas, frascos coloridos de cristal, sem falar dos livros antigos, um dos quais intitulado Formulário e Guia para Médicos, compilado pelos Jesuítas e publicado em 1831, com a relação dos medicamentos usados pelos índios.
Indica-se por acréscimo o Primeiro Tratado de Medicina, de João Cardoso de Miranda, publicado na cidade do Porto em 1831.
Outro livro interessante é o Formulário para o serviço da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, editado em 1915 e organizado pelo Dr. Arnaldo Vieira de Carvalho (ao tempo diretor clinico da instituição) e pelo farmacêutico João Meira de Vasconcelos. E refere-se ainda o primeiro Formulário de Medicamentos (com 999 itens) sobre poções, infusões, etc., de 1906, e o Regulamento para o serviço de Pharmácia do Hospital da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo e que em 1907 foram os 2 volumes do Dicionário de Medicina Popular das Sciencias Acessórias, da autoria de Pedro Luiz Napoleão Czerniewiecz, médico polonês que se formou na França.
Todo este acervo histórico farmacêutico encontra-se no acervo do Museu, no Pavilhão Fernandinho Simonsen - Ortopedia, onde estão igualmente instrumentos cirúrgicos e documentos que pertenceram ao mèdico e Professor Dr. Waldemar de Carvalho Pinto, que foi Provedor da Santa Casa de São Paulo e de outros médicos que são testemunhos relacionados com a História da Medicina Brasileira.
Finalmente, observa-se que no Pavilhão Fernandinho Simonsen guardam-se outros instrumentos de interesse médico e histórico, como é o caso das peças ortopédicas, resgatadas com patrimônio científico, médico e hospitalar.
Outro destaque imprescindível é a menção de que o hospital da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo foi um dos principais entre aqueles que mais ajudaram os
heróis feridos nas batalhas de 1932 a recuperar-se para a Pátria e para a vida.
Faz-se este simples registro, que não passa de mera enumeração dos milhares de instrumentos e documentos cuja análise deve ser feita por quem venha a fazer, um
dia, a História da Medicina e dos Hospitais do Brasil.
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